Eu estava louca para ler o livro da Amy Chua, "O Grito de Guerra da Mãe Tigre" a muito tempo. Lembro do "sururu" que ocorreu quando o livro saiu, mas levei anos para realmente procurá-lo e lê-lo. Finalmente comprei a minha edição na Bienal Internacional do Livro no Rio de Janeiro.
A Amy Chua é uma mãe sino-americana, criada por pais chineses em um estilo tradicional. Os pais sempre exigiram excelência de todos os filhos visando um futuro excelente para todos. Amy Chua formou-se em Direito em Harvard, foi a líder da revista de Direito da universidade, uma das publicações mais prestigiadas dos EUA e tornou-se professora em Yale. Apesar de ter se casado com um judeu, criou suas filhas no estilo chinês, com a mesma exigência a que foi submetida e também com o mesmo objetivo e é essa a história que ela conta no livro.
A meu ver, a professora Chua é muito extremista no sentido de levar muita tensão para dentro de casa o tempo inteiro, exigindo das filhas treino quase ininterrupto. Essa parte eu achei complicada porque casa é lugar para relaxar. Ainda que seja necessário passar horas estudando ou trabalhando em casa, o nível de tensão precisa ser menor, sem discussões, sem gritos, sem barulhos.
No mais, não a achei louca de forma alguma! Pelo que entendi, o modelo chinês de criação dos filhos visa o sucesso das crianças. Os pais fazem o melhor que podem para coloca-los em boas escolas, proporcionam melhor material possível para que estudem e se saiam muito bem. Eu não vejo o que tem de errado nisso para tanta gente criticar. Na minha casa, minha mãe tomava os meus livros para que eu não estudasse depois da escola e meu pai ameaçava queimá-los quando eu pedia que ele diminuísse o volume da tv para que eu pudesse ler. Por que isso não é considerado errado?
Sobre o livro, eu entendi que o foco do modelo de educação chinesa é preparar o filho para o mundo; habilitá-lo de todas os conhecimentos possíveis; mostrar que, com esforço, ele pode ir muito longe; coisas boas vem com trabalho árduo; deve-se sempre fazer o melhor. Os pais chineses - baseio-me aqui no livro da Amy Chua - tem como meta apresentar ao filho as opções e treiná-lo para que, mais à frente, ele seja capaz de escolher um caminho e se sair bem sem arrependimentos ou frustrações.
Eu sempre amei estudar. Não me é um sacrifício. Infelizmente eu nunca tive apoio emocional ou financeiro dos meus pais para estudar o tanto que eu gostaria para ter sucesso. Minha avó me ajudou muito, mas era muito difícil ainda assim. Era uma verdadeira guerra para que eu conseguisse fazer um dever de casa porque minha família queria que eu fosse como todo mundo: visse tv o dia todo.
Reparei como era com os meus amigos e, invariavelmente, acontecia a mesma coisa. Os pais querem que os filhos estudem, mas acabam enjoando de vê-los estudar depois de um tempo: interrompem, pedem que façam outras atividades no meio dos estudos; incentivam para irem passear ao invés de estudar num final de semana. Importar-se pouco com a Educação faz parte da cultura do Brasil. É uma cultura de comodismo, de conformismo.
Há também o pensamento de que o Ensino Médio é o suficiente. Ao fim dele, o filho deve trabalhar pra ajudar em casa. Ou ainda que vá a uma faculdade, mas a prioridade é que trabalhe e estude à noite. Estudando à noite depois de um dia inteiro de trabalho, o aluno não pode se dedicar aos estudos como seria apropriado. Faz-se o mínimo necessário e só.
Eu não sei porque ninguém critica isso, mas criticam uma mãe que oferece todas as oportunidades às filhas e lhes cobra na mesma medida em que lhes dá. Li o livro e fiquei com muita inveja. Fiquei pensando onde eu estaria hoje se tivesse nascido em uma família chinesa ou que fosse criada por uma mãe-tigre independente da nacionalidade. Por mais ridículo que seja, hoje eu tenho 26 anos, vivo com o meu pai e continua sendo uma batalha para eu conseguir estudar e me dedicar ao que eu escolhi fazer. Quando sento com um livro e um caderno nas mãos, meu pai senta imediatamente no mesmo cômodo e começa a falar sem parar, pedir mil favores, faz diversos barulhos. Basta que eu largue tudo e ligue a tv para ele se calar e ir embora.
Eu sempre tive a impressão de que meus pais me sabotam. Quando minha mãe ainda era viva me sabotava para que eu nunca me saísse melhor do que a minha irmã, já que a filha favorita sempre foi a minha irmã. A preferência era declarada e aberta. Meu pai já sabota por egoísmo. Tem medo de que eu me saia bem, vá para longe e ele fique sozinho. Ele prefere que eu seja fracassada e infeliz perto dele, a ser feliz e bem sucedida longe. Pelo menos essa é a interpretação que tenho pela forma de agir dos meus pais e pelas coisas que eles sempre falavam.
Nas famílias de amigos e conhecidos também há essa necessidade dos pais prenderem os filhos em casa a qualquer custo e pelo máximo de tempo possível. Faz parte da cultura Latina. É mais aceitável que saiam de casa casados e com filhos do que para estudar longe.
Não me entendam mal. Não quero culpar meus pais por todos os problemas da minha vida. Mas devo pontuar que, como pais, eles não cumpriram o papel deles de mostrar o "mundo" e, principalmente, o de ensinar. Isso tudo eu tive que descobrir e aprender sozinha. Está levando mais tempo do que levaria se eles tivessem cumprido o seu papel, mas cabe a mim continuar me esforçando e não me acomodar, não tomar partido do pensamento cultural de conformismo do meu país.
No comments:
Post a Comment